Elogio do Anacronismo – O Ocidente, a história grega e o pensamento feminista

Profa. Dra. Marta Mega de Andrade
Dia/Horário: Quartas-feiras, 10-13h
Sala: 314

Ementa:
O curso visa discutir perspectivas teórico-metodológicas para a abordagem de alguns dos procedimentos pelos quais a formulação de modelos femininos (corpos, espaços, tempos, subjetividades) entre os séculos XIX e XX, principalmente no âmbito das propostas civilizacionais de Ocidente, operou por releituras de papéis de gênero na Antiguidade grega. Trata-se, então, de refletir sobre os usos da Antiguidade Clássica em discursos vinculados particularmente à formação da mulher, permitindo-se o exercício de um “anacronismo controlado” para compreender esse aspecto especular da remissão aos gregos: a familiaridade cultural, a linearidade temporal e a homogeneidade física com que o exemplo das “mulheres de Atenas” é retomado precisa ser aprofundada como prática discursiva, fruto de uma leitura retrospectiva em que o fenômeno da pólis e a divisão das esferas pública e privada em masculino / feminino reverberam, por exemplo, a valorização do Estado-nação por uma elite política e intelectual urbana. Sugiro, assim, que o espelhamento nos “gregos antigos” é um dos elementos que contribui simultaneamente para criar e justificar não apenas as “mulheres de Atenas” mas ainda “A Mulher” natural na dimensão minoritária das trocas simbólicas feitas principalmente através das leituras (livros, imprensa periódica) e da formação escolar. O pensamento feminista, especificamente em iniciativas como as de Marilyn Strathern e Donna Haraway, nos permite debater essa releitura dos gregos antigos no que ela implica o “despensamento” de parâmetros teórico-metodológicos, dentre os quais enfatizarei “tempo”, “subjetividade”, “natureza”.

Bibliografia:

AGAMBEN, Giorgio. A. Homo Sacer. Poder soberano e vida nua. Belo Horizonte, UFMG, 2007.
ARENDT, H. A Condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 1987.
ANDRADE, Marta. A vida comum: espaço, cotidiano e cidade na Atenas clássica. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
———. Corpo, gênero e poder na reflexão política dos gregos. In: ANDRADE, Marta Mega;
SEDREZ, Lise Fernanda; MARTINS, Willian de Souza (Orgs.). Corpo: sujeito e objeto. Rio de Janeiro: Ponteiro, 2012.
———. Nós e o outro: A cidade-estado e os dilemas de uma política sem rosto. Mare Nostrum. São Paulo, v. 9, n. 2, 2018, p. 70-83.
———. Tempo, história e subjetividade em uma abordagem “atópica” das teses de Walter Benjamin em seu ensaio Sobre o conceito de história. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 12, n. 29, abr.ISSN 1983-9928. Disponível em:
<https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/view/1374>. Acesso em: 28 maiodoi:https://doi.org/10.15848/hh.v12i29.1374.

BASTOS, Maria Helena Camara; GARCIA, Tania Elisa Morales. Leituras de formação: noções da vida doméstica (1879). Félix Ferreira traduzindo Madame Hippeau para a educação das mulheres brasileiras. In: História da Educação. ASPHE. Pelotas, 5, abr. 1999.
BENJAMIN, Walter. Teses sobre a História. IN: LOWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Trad. Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 33-146.
BICALHO, Maria Fernanda. O bello sexo: imprensa e identidade feminina no Rio de Janeiro em fins do século XIX e início do XX. In: COSTA, Albertina; BRUSCHINI, Cristina (Org). Rebeldia e submissão: estudos sobre a condição feminina brasileira. São Paulo: Vértice, 1989.
COSTA, Emília Viotti da. Patriarcalismo e patronagem: mitos sobre a mulher no século XIX. In: COSTA, Emília Vioti da. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: UNESP, 2010.
DE CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano, I: Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes, 1997.
D’INCAO, Maria Ângela. Mulher e família burguesa. In: DEL PRIORI, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2004.
FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad: Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GINZBURG, Carlo. Olhos de Madeira. Nove reflexões sobre a distância. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Cia das Letras, 2001.
HARAWAY, Donna. Simians, Cyborgs and Women. The Reinvention of Nature. New York: Routledge, 1991.
JINZENJI, Mônica Yumi. Cultura impressa e educação da mulher no século XIX. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos à Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
LÔBO, Yolanda; FARIA, Lia. Vozes femininas do Império e da República. Rio de Janeiro: Quartet; FAPERJ, 2008.
LORAUX, Nicole. Notes sur un impossible sujet de l’histoire. Les cahiers du Grif, n. 37/38, 1988, p. 113-124.
———.Las experiencias de Tiresias: Lo masculino y lo feminino en el mundo griego. Barcelona: Acantilado, 2004.
———. O elogio do anacronismo em história. A tragédia de Atenas: a política entre as trevas e a utopia. Tradução: Paula Sílvia Rodrigues Coelho da Silva. 1a ed. São Paulo: Loyola, 2009, p. 137-156 e p. 187 – 204.
LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2004.
MORAIS, Maria Arisnete C. Leituras de mulheres no século XIX. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
MORALES, F. A. A Democracia Ateniense pelo Avesso. São Paulo: EDUSP, 2014.
PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. A imprensa periódica como uma empresa educativa no século XIX. Caderno de Pesquisa, São Paulo, n.104, p. 144-145, jul. 1998: Disponível em: <http://www.fcc.org.br/pesquisa/publicacoes/cp/arquivos/168.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2014.
PENNA, Fernando de Araújo. A importância da tradição clássica no nascimento da disciplina escolar História no Imperial Colégio de Pedro II. In: CHEVITARESE, André Leonardo;

CORNELLI, Gabriele; SILVA, Maria Aparecida de Oliveira. A tradição clássica e o Brasil. Brasília: Fortium, 2008.
PRIORE, Mary Del (Org.). HIstória das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2004. REDFIELD, James. O Homem e a Vida Doméstica. In VERNANT, Jean-Pierre (ed.) O Homem Grego. Lisboa, edl Presença, 1994, pp. 147-171.
SAXONHOUSE, A. W. Women in the History of Political Thought: Ancient Greece to Machiavelli. Westport: Praeger, 1985
SCOTT, Joan. Gender and the Politics of History. New York: Columbia University Press, 1999.
———. A Cidadã Paradoxal. As Feministas Francesas e os Direitos do Homem. Florianópolis: Mulheres, 2002
SOURVINOU-INWOOD, Christianne. Male and Female, Public and Private, Ancient and Modern. In Reeder, E. (Ed.), Pandora .Princeton: Princeton University Press, 1995, p. 111-121.
STRATHERN, Marilyn. O Gênero da Dádiva. Problemas com as Mulheres e Problemas com a Sociedade na Melanésia. Campinas: Unicamp, 2006.
TAMBARA, Eliomar. A educação feminina no Brasil ao final do século XIX. História da Educação. ASPHE/UFPel, Pelotas (1): 67-89, abr. 1997.
TAYLOR, Claire e VLASSOPOULOS, Kostas. Introduction: an agenda for the study of greek History. IN: Idem (ed.) Communities and networks in the Ancient Greek World. Oxford: Oxford UP, 2015, p. 1-36.
TURNER, F. The greek heritage in Victorian Britain. New Haven: Yale University Press, 1981.