Formas de falar de si: ensaio, autobiografia, ficção

Prof. Dr. Felipe Charbel
Dia/Horário: Terça-Feira, 15h-18h
Sala Werneck

Ementa: O curso busca discutir o interesse e as particularidades de performances textuais híbridas e intergenéricas no âmbito das ciências humanas e das narrativas contemporâneas. Partindo de discussões iniciais sobre o gênero ensaio e sua convocação de origem ao experimento e à experiência, seguiremos examinando manifestações do processo de “escrever a leitura” que impactam o funcionamento textual (ou a retórica) de produções recentes em áreas como a história, a antropologia, os estudos literários, a história da arte e o novo jornalismo. Concluiremos com a análise de narrativas literárias recentes marcadas por aventuras no manejo das transações entre ficção, ensaio e autobiografia.

Unidade 1. As formas do ensaio

  1. Teoria do ensaio: Lukács, Adorno
  2. Ensaio, experimento e experiência: Michel de Montaigne
  3. “Um modo justo de dizer eu”: a operação barthesiana
  4. Textos para discussão:
    LUKÁCS, Gyorg. “Sobre a forma e a essência do ensaio: carta a Leo Popper”. In: A alma e as formas. Trad. Rainer Patriota. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
    ADORNO, Theodor. “O ensaio como forma”. In: Notas de literatura I. Trad. Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades: Editora 34, 2003.
    MONTAIGNE, Michel de. “Do arrependimento” e “Da experiência”. In. Os ensaios, livro III. Trad. Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
    BARTHES, Roland. “Escrever a leitura”. In: O rumor da língua. Trad. Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
    _ “Durante muito tempo, fui dormir cedo”. In. O rumor da língua.
    A preparação do romance, vol. 1. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 193-225.

Unidade 2. Ensaísmo autobiográfico nas ciências humanas
Estudos de caso:
a. A perspectiva autobiográfica na antropologia e nos estudos literários: Renato Rosaldo e Peter Stallybrass
b. A escrita biográfica como relato de um processo: Janet Malcolm
c. Diário, anotação e as formas da atenção na história da arte: T. J. Clark
d. A filosofia como escrita de si: Maggie Nelson
e. Experimentos narrativos na historiografia: Ivan Jablonka
Textos para discussão:
ROSALDO, Renato. “Grief and a Headhunter’s Rage”. In. Culture & Truth. The Remaking of Social Analysis. Boston: Beacon Press, 1993.
STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx. Roupas, memória, dor. Trad. Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
MALCOLM, Janet. “41 inícios falsos”. In: 41 inícios falsos. Ensaios sobre artistas e escritores. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
_ A mulher calada. Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia. Trad. Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
CLARK, T. J. The sight of death. An experiment in art writing. New Haven and London: Yale University Press, 2006.
NELSON, Maggie. Argonautas. Trad. Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
JABLONKA, Ivan. Histoire des grands-parents que je n’ai pas eus. Paris: Seuil, 2012 (A History of the Grandparents I Never Had. Stanford University Press, 2016).

Unidade 3. A ficção entre o ensaio e a autobiografia

  1. Reescrita, travelogue, inespecificidade: W. G. Sebald
  2. Autoficção, ensaio, estética de laboratório: Ben Lerner
  3. Literaturas do real, romances sem ficção: Isabela Figueiredo
    Textos para discussão:
    SEBALD, W. G. Os anéis de saturno. Trad. José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
    GARRAMUÑO, Florencia. Frutos estranhos. Sobre a inespecificidade na estética contemporânea. Trad. Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
    LERNER, Ben. 10:04. New York: Farber & Farber, 2014.
    LADDAGA, Reinaldo. Estética de laboratório. Estratégias das artes do presente. Trad. Magda Lopes. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
    FIGUEIREDO, Isabela. Caderno de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 2018.


Bibliografia complementar
ALBERCA, Manuel. “El pacto ambíguo y la autoficción”. In. MELLO, Ana Lisboa (org.).
Escritas do eu. Introspecção, memória, ficção. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.
BARTHES, Roland. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
BURTON, Antoinette (org.). Archive Stories. Facts, Fictions, and the Writing of History. Durham and London: Duke University Press, 2005.
BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo. Crtítica da violência ética. Trad. Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

CLIFFORD, James e MARCUS, George (org.). A escrita da cultura. Trad. Maria Claudia Coelho. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens: EdUERJ, 2016.
CLIFFORD, James. A experiência etnográfica. Antropologia e literatura no século XX. Trad. Patricia Farias. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2014.
DERRIDA, Jacques. O cartão-postal. De Sócrates a Freud e além. Trad. Ana Valéria Lessa e Simone Perelson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
GEERTZ, Clifford. Obras e vidas. O antropólogo como autor. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.
GIORDANO, Alberto. A senha dos solitários. Diários de escritores. Trad. Rafael Gutiérrez. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2017.
HAYOT, Eric. The Elements of Academic Style. Columbia University Press, 2014.
JABLONKA, Ivan. La historia es una literatura contemporánea. Manifiesto por las ciencias sociales. Trad. Horacio Pons. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2016.
LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. De Rousseau à internet. Trad. Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.
MARTY, Éric. Roland Barthes. O ofício de escrever. Trad. Daniela Cerdeira. Rio de Janeiro: Difel, 2009.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
PEREIRA, Antonio Marcos. “Biografia literária: duas tradições”. Outra Travessia, v. 1, 2013.
__“A dupla vida do romance autobiográfico”. In. CHARBEL, Felipe; GUSMÃO, Henrique e SILVA MELLO, Luiza Larangeira (org.). As formas do romance. Estudos sobre a historicidade da literatura. Rio de Janeiro: Ponteio, 2016.
PRELORENTZOU, Renato. Futuro do pretérito: tempo e narrativa na história, no romance. Tese de Doutorado. São Pauulo, USP, 2015.
PRICE, Richard. “Meditação em torno dos usos da narrativa na antropologia
contemporânea”. Horizontes antropológicos, 10, 21, 2004.
PYNE, Stephen. Voice & Vision. A Guide to Writing History and Other Serious Nonfiction. Cambridge and London: Harvard University Press, 2009.
SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
SPENGELMANN, William C. The Forms of Autobiography. New Haven and London: Yale University Press, 1980.
SPIVAK, Gayatri C. A Critique of Postcolonial Reason: Toward a History of the Vanishing Present. Harvard University Press, 1999.
TAUSSIG, Michael. I swear I saw this: Drawings in fieldwork notebooks, namely my own. Chicago: University of Chicago Press, 2011.
WHITE, Hayden. “O texto histórico como artefato literário”. In. Trópicos do discurso. Trad. Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: EDUSP, 1994.