Leituras sobre Nobreza nas sociedades de Antigo Regime: Europa e suas conquistas americanas (séculos XV e XVIII).

Prof. Dr. João Fragoso
Dia/Horário: Terça-feira, 9h – 12h
Sala Afonso

Ementa
Os estudos da nobreza no Antigo Regime recentemente foram renovados pelas discussões sobre a organização política da Europa e de seus impérios ultramarinos.  Em primeiro lugar, temos as críticas à ideia de Absolutismo como chave para a compreensão dos Estados Modernos; segundo ela a centralidade da coroa implicou no esvaziamento do poder da aristocracia senhorial e dos municípios.  Contrariando essa hipótese, diferentes pesquisas e ensaios, desde a década de 1990, argumentam que as monarquias modernas da Península Ibérica e da Europa Central mantiveram em grande medida o caráter corporativo e polissinodal (concorrência de poderes) dos sistemas políticos medievais; consequentemente, a autoridade da aristocracia e dos municípios, mesmo reduzida, foi resguardada.  Um dos resultados desta crítica tem sido a gradual reconstrução do conceito de Antigo Regime, entendido não mais como sinônimo de  Absolutismo.  Em segundo lugar, àquela discussão encontrou ressonância na velha crítica, vinda dos anos de 1970, ao conceito de sistema mundial capitalista de I Wallerstein e de economia mundo europeia de F. Braudel.  Desde os anos de 1980, ao menos, textos de história econômica negam a ideia da existência de um capitalismo desde o Quinhentos e, mais, o caráter dependente das relações centro-periferia nos impérios ultramarinos.  As analises atuais tendem a demonstrar que a centralidade da Coroa nas conquistas do além-mar coexistiu (como nos reinos europeus) com poderes concorrentes, no caso municípios: neles prevalecia o principio do autogoverno das repúblicas.

A combinação daquelas questões, entre outras consequências, tem chamado a historiografia a retomar os estudos da nobreza europeia e das elites políticas e sociais nas conquistas ultramarinas. 

À tal convite junta-se outro: Refiro-me à crise do estruturalismo, de seus procedimentos de pesquisa, e ao surgimento de novos arcabouços teóricos com os seus respectivos procedimentos de investigação como o novo marxismo inglês e a micro história italiana.  Para tanto, basta lembrar a ideia de agencia dos camponeses e dos escravos na produção de suas respectivas sociedades ou ainda o entendimento da dinâmica das relações tais sociedades como um processo gerativo.

Considerando tais preocupações o curso tem por objetivo debater alguns temas chaves para a compreensão da Europa do Sul e de suas conquistas americanas: nobreza solar, nobreza da terra, miscigenação senhores – escravos nas conquistas e hierarquias sociais costumeiras. Com este intuito o curso está dividido em três Módulos:

  1. Módulo: métodos e técnicas para a pesquisa em história social
  2. Módulo: historiografia sobre nobreza solar na Europa e elites rurais nas sociedades americanas com base na escravidão americana.
  3. Módulo: : historiografia sobre elites sociais e políticas na América lusa escravista

a- Módulo: conceitos teóricos e métodos de pesquisa para o estudo elites sociais e políticas na época moderna (séculos XVI – XVIII).

1 e 2a sessão – ELIAS, N. Introdução à sociologia. Capítulos 3, 4 e 5,texto disponível na internet Parte da segunda sessão será usada para o início da leitura de GINZBURG, C., O nome e o como, in: A micro-História e outros ensaios , Lisboa, Difel, 1991

3a. sessão – GINZBURG, C., Sinais: Raízes de um paradigma indiciário, in: Mitos emblemas e sinais, São Paulo: Cia das Letras, 1990; GRENDI, Edoardo, Microanalise e História Social, In: OLIVEIRA, Mônica Ribeiro & ALMEIDA, Carla Maria Carvalho. Exercícios de micro-história. Rio de Janeiro: ed. FGV, 2009;

b- Módulo: historiografia sobre nobreza solar na Europa e elites rurais nas sociedades americanas com base na escravidão americana

4a. sessão – H.M.Scott (editor), Introdução,  The european nobilities. Vol 1. Londres: Longman, 2005 (2 ed.); MONTEIRO, Nuno G Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime. Análise Social, vol XXXII (141), 1997, pp. 335-368, texto e disponível na internet site da revista Análise Social; – MONTEIRO, Nuno G.  – Monteiro, Nuno G. Casa e Linhagem: o vocabulário aristocrático em Portugal nos séculos XVII e XVIII. Penélope – Fazer e Desfazer a História, n. 12, 1993, texto disponível na internet

5a. sessão – RODRIGUES, José Damião. São Miguel no Século XVII: casa, elites e poder. Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2003. (Parte II)

c-Módulo: Pesquisas de Pós-Graduação sobre elites sociais e políticas na América lusa escravista

6a. sessão – RUGGIU, Francois-Joseph. Extraction, wealth and industry: The ideas of noblesse and of gentility in the English and French Atlantics (17th–18th centuries), in: History of European Ideas 34, Reino Unido, Taylor & Francis. (2008) 444–455

7a. sessão – MARCHENA, Juan. F. Ephemeral Spleundour and A Lengthy Tradition: the Peruvian aristocracy of the late colonial period, in: Paul Janssens and B. Yun-Casilila (ed) European aristocracies and colonial elites. Ashgate, 2005;

8a. sessão – AROUCHE, Marcone Zimmerle Lins, Serviço e Nobilitação: a dinastia Bragantina e as concessões de foro de fidalgo no Atlântico Sul (160-80). Recife: UFPE, 2015 (dissertação de mestrado inédita)

9a. sessão – RAMINELLI, Ronald. Nobrezas do Novo Mundo. Rio de Janeiro: FAPERJ; FGV, 2015; MELLO, Evaldo Cabral de. A Fronda dos Mazombos – nobres contra mascates Pernambuco 1666-1715, São Paulo: Cia das Letras, 1995

10a. – KRAUSE, Thiago Nascimento. A Formação de uma Nobreza Ultramarina:Coroa e elites locais na Bahia seiscentista, Rio de Janeiro: PPGHIS – UFRJ, 2015 (tese de doutorado inédita)

11a  sessão – Jonas Vargas. Pelas Margens do Atlântico: um estudo das elites locais e regionais na economia e política: charqueadores de Pelotas – RGS (século XIX). 2013. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro

12a  sessão Victor Luiz Alvares Oliveira. Retratos de Família: sucessão, terras e ilegitimidade entre a nobreza da terra de Jacarepaguá, séculos XVI – XVIII. 2014. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro

Avaliação: exposição de, ao menos, um dos textos acima, e resenha das leituras semanais e monografia de final de curso abordando temas sobre metodologia de pesquisa