Natureza e História

Prof. Dr. José Augusto Pádua

APRESENTAÇÃO

A construção do conceito de “natureza”, como categoria unificadora de uma realidade extremamente complexa e diversificada, constitui um dos pilares do pensamento ocidental. Desde a antiguidade clássica, a formação da idéia de sociedade humana passou por um conjunto de oposições onde o conceito de natureza (physis, natura) representou uma parcela decisiva: natureza versus lei; natureza versus técnica; natureza versus espírito; natureza versus arte; natureza versus história. Ou seja, um conjunto de diferenciações que procurou estabelecer a especificidade do fenômeno humano diante do referencial básico da natureza.

De toda forma, a convivência obrigatória com as estruturas e processos biofísicos que existem no planeta Terra, incluindo a diversidade de espécies que nele evoluem, define um aspecto essencial da experiência histórica dos seres humanos. Tal convivência, assim como a produção cultural de imagens e concepções sobre o mundo natural, representa um dos fundamentos mesmos dessa experiência histórica, na medida em que: 1) a existência humana expressa-se necessariamente através de atos biológicos e 2) as paisagens, tecnologias e representações produzidas pela ação humana manifestam-se sempre na interseção entre espaços / elementos naturais específicos e movimentos de apropriação / transformação significativa dos mesmos através de ações coletivas.

A relação entre a tradição historiográfica e o tema da natureza foi sempre tensa e ambígua, até mesmo pelo fato da primeira basear-se em grande parte no movimento de afirmação da sociedade humana através da negação dos seus vínculos naturais. Uma parcela considerável da tradição historiográfica desqualificou radicalmente a relevância do mundo natural para o entendimento da trajetória humana. Outra parcela desaguou na falácia do determinismo geográfico/ecológico, que toma o natural como eixo mono-causal de explicação da vida social.

No contexto da contemporaneidade o quadro teórico tornou-se mais complexo e menos dualista. As ciências naturais adquiriram maior sofisticação teórica, aproximando-se da perspectiva histórica ao entender a natureza como uma realidade em constante transformação, longe da imagem tradicional de um cenário estável e permanente. O diálogo da história com a ecologia e a geografia vem inspirando análises cada vez mais finas. A politização do tema da natureza no espaço público, por outro lado, é cada vez mais intensa, desafiando a reflexão dos cientistas sociais.

Esse conjunto de desafios teóricos e políticos tem estimulado o surgimento de uma literatura rica e instigante que procura renovar a compreensão do lugar da natureza na história humana – e da história humana na natureza – valendo-se de instrumentos conceituais mais sofisticados e de estratégias analíticas mais elaboradas. Tal renovação teórica não está limitada aos historiadores ligados à corrente específica da “história ambiental”, que vem crescendo institucionalmente em diferentes países, mas inclui o esforço intelectual de nomes notáveis como Fernand Braudel, Keith Thomas, Raymond Williams, E. Le Roy Ladurie, Simon Schama e outros.

Dentro deste panorama, o curso pretende discutir, mesmo que de maneira seletiva, o estado da arte do tratamento do tema da natureza na historiografia contemporânea. A discussão focalizará alguns trabalhos especialmente relevantes, agrupados segundo determinados eixos conceituais e temáticos que possam fornecer uma clara indicação da riqueza, densidade e relevância das análises.

PROGRAMA E BIBLIOGRAFIA BÁSICA

* Aula 1 – Introdução Geral ao Tema e ao Programa

–  Pádua, J.A. “As Bases Teóricas da História Ambiental”, Estudos Avançados, 24 (68), 2010.

–  PARTE I: A RELAÇÃO ENTRE NATUREZA E HISTÓRIA COMO PROBLEMA TEÓRICO

* Aulas 2 e 3: Conceitos de Natureza e Teorias da História

–  Williams, R. “Idéias de Natureza” in Cultura e Materialismo (UNESP, 2011).

–  Braudel, F. “Há uma Geografia do Individuo Biológico?” in Escritos sobre a Historia (São Paulo, 1992)

–  Arnold, D. The Problem of Nature (Oxford, 1996).

* Aulas 4 e 5: Além do Dualismo: O Diálogo Necessário entre História, Antropologia e Ecologia

–  Levi-Strauss, C. “Estructuralismo y Ecologia” (Madrid, 1976)

–  Ingold, T. e Palsson, G., Ed, Biosocial Becomings: Integrating Social and Biological Anthopology (Cambridge, 2013)

–  Descola, P. Par-delà Nature et Culture (Paris, 2005)

–  Viveiros de Castro, E. “Imagens da Natureza e da Sociedade” in E. Viveiros de Castro, A Inconstância da Alma Selvagem (São Paulo, 2002).

–  Asdal, Kristin. “The Problematic Nature of Nature: The Post-Constructivist Challenge to Environmental History”, History and Theory, n. 42-1, 2003.

–  Cronon, W. “In Search of Nature” e “The Trouble with Wilderness” in W. Cronon, Ed., Uncommon Ground: Toward Reinventing Nature (New York, 1996).

–  Worster, D., “Nature and the Disorder of History” in M. Soulé e G. Lease, Eds, Reinventing Nature?: Responses to Postmodern Deconstruction (San Francisco, 1995).

–  PARTE II: O TEMA DA NATUREZA NA HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA – ALGUNS CONCEITOS FUNDAMENTAIS

* Aulas 6 e 7 – Darwinismo, Ecologia e a Radicalização do Enfoque Histórico no Entendimento da Natureza

–  Norris, M. “Darwin’s Reading of Nature” in M. Norris, Beasts of the Modern Imagination (Baltimore, 1985).

–  McNeill, W. “Passing Strange: The Convergence of Evolutionary Science with Scientific History”, History and Theory, n. 40 – 1, 2001

–  Drouin, J-M. L’Ecologie et son Histoire: Réinventer la Nature (Paris, 1991)

–  Maturana, H. e Varela, F. A Árvore do Conhecimento: as Bases Biológicas da Compreensão Humana (São Paulo, 2010).

* Aula 8 – Revisitando a Relação entre Geografia e História

–  Alan Baker, Geography and History: Bridging the Divide (Cambridge, 2003)

–  Williams, M., “The Relations of Environmental History and Historical Geography”, Journal of Historical Geography, n. 20-1, 1994.

–  Swyngedouw, E. “The making of cyborg cities” In: Heynen, N., Kaika, M. e Swyngedouw, E., eds., In the Nature of Cities (London, 2006)

* Aula 9 e 10 – Região, Paisagem e História.

–  Duby, G. “Quelques Notes pour une Histoire de la Sensibilité au Paysage”, Études

Rurales, 121-124, 1991.

–  Dubost, F. “La Problématique du Paysage: État des Lieux”, Études Rurales, 121-124, 1991.

.- Corbin, A.  L’Homme dans Le Paysage (Paris, 2001)

–  Schama, S.  Landscape and Memory (London, 1995)

–  Mitchell, W., org., Landscape and Power (Chicago, 2002)

–    Malpas, J., org., The Place of Landscape (Cambridge, 2011)

–  Braudel, F. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II (Lisboa, 1983)

–  Braudel, F., org., O Espaço e a História no Mediterrâneo (São Paulo, 1988).

–  Freyre, G. Nordeste: Aspectos da Influencia da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil (Rio de Janeiro, 1985)

 

–  PARTE III: A NATUREZA COMO PROBLEMA HISTORIOGRÁFICO – ALGUNS TEMAS FUNDAMENTAIS

* Aulas 11 e 12 – A Floresta como Objeto Historiográfico

–  Harrison, R. Forests: The Shadow of Civilization (Chicago, 1992)

–  Radkau, J. Wood: a History (London, 2012)

–  Dean, W. A Ferro e Fogo: A História e a Destruição da Mata Atlântica Brasileira (São Paulo, 1999)

–  Corvol, Andrée,  Les Arbres Voyagers (Paris, 2005)

–  Williams, Michael, Deforesting the Earth  (Chicago, 2003)

* Aulas 13 e 14: A Circulação de Plantas e Animais como Objeto Historiográfico.

–  Beinart, W.e Middleton, K., “Transferência de Plantas em uma Perspectiva Histórica”, Topoi, 19 (10), 2009.

–  Russel-Wood, A.J.R, “Dissemination of Flora and Fauna”, Cap. V de A.J.R Russel-Wood, The Portuguese Empire: a World on the Move (Baltimore, 1998)

–  Kiple, Kenneth, A Movable Feast: Ten Millennia of Food Globalization (Cambridge, 2007)

–  Crosby, A., Ecological Imperialism: The Biological Expansion of Europe – 900/1900 (Cambridge, 1986)

* Aula 15 – Doenças como Objeto Historiográfico

–  Le Roy Ladurie, E. “Un Concept: L’unification Microbienne du Monde” in E. Le Roy Ladurie, Le Territoire de L’Historien 2 (Paris, 1978)

–  Cook, N. D., Born to Die: Disease and the New World Conquest – 1492/1650 (Cambridge, 1998)

– Watts, S. Disease and Medicine in World History (London, 2003)

–  Crosby, A., Ecological Imperialism: The Biological Expansion of Europe – 900/1900 (Cambridge, 1986)

* Aula 16 – O Clima como Objeto Historiográfico

–  Le Roy Ladurie, E., Histoire Humaine et Comparée du Climat, 2 vols  (Paris, 2004-2006)

–  Le Roy Ladurie, E., Abrégé d´Histoire du Climat: Du Moyen Age à Nos Jours (Paris, 2007)

–  Ruddiman, W. Plows, Plagues and Petroleum: How Humans Took Control of Climate (Princeton,    2005)

– Acot, Pascal, Histoire du Climat (Paris, 2004).

Programa completo: Natureza e História