Seminário de história das práticas letradas: “O século XVI do século XX”: analogia entre mística e teoria dos signos

Profa. Andrea Daher

Este seminário abordará perspectivas teóricas diversas e apresentará estudos de caso pontuais de práticas de discurso relacionadas à analogia: primeiro, sob a instituição retórica, em particular no século XVI; e, segundo, nos usos que o século XX fez dessa categoria, muitas vezes relacionados diretamente às perspectivas quinhentistas.

Num primeiro bloco, as leituras se concentram na definição do Regime analógico da época moderna”, como regime que comanda a observação e a representação dos seres, segundo o significado filosófico corrente de analogia como proporção, equivalendo à ideia de igualdade de relações. (Aristóteles) Nas concepções escolásticas e neoescolásticas, a relação analógica se estende aos predicados atribuídos a Deus e às criaturas, seja por atribuição, seja por proporcionalidade. Disso decorre que a ciência do ser, na escolástica, divide-se em metafísica (ciência do ser criado, dirigida para o conhecimento do homem) e teologia (ciência do ser necessário, dirigida para a salvação dos homens). (Ashworth)

O segundo bloco se volta para A  analogia  no século  XX: a  mística”.  Trata-se de entender o que se passa no início do século XX, quando a categoria analogia se torna fundamental no interior do que se convencionou chamar “pensamento místico”, num momento de crise do cartesianismo analítico. Em 1922, Lévy-Bruhl qualifica a mentalidade primitiva como mística por estar fora das leis da lógica, e, assim, do princípio de identidade ocidental. Nos mesmos anos 20, o Surrealismo empreende a construção de determinadas “figuras do irracional”, lado a lado com empreitadas intelectuais, tais como a da revista Documents, que retomam  textos da mística cristã, do  neoplatonismo  e da alquimia quinhentistas.

As leituras do terceiro bloco, A analogia no século XX: o ponto de vista especulativo, mostram como analogia se torna, no começo dos anos 30, um princípio de construção do saber, apoiado na edição e na abordagem histórico-filosófica das obras de Paracelso e Boehme por Koyré e, a seguir, nos estudos de Gilson.

O quarto bloco, “Teoria dos signos: linguística e estruturalismo”, abarca os anos 50 e 60 do século XX, quando o misticismo já não estava mais em voga, porém a linguística havia se tornado um modelo de pensamento com o estruturalismo. Diferentemente do que acontecera no início dos anos 30, a analogia passa a funcionar não mais nos quadros de um “pensamento místico”, mas nos de uma teoria ternária do signo, como fez Foucault.

As leituras do quinto e último bloco, “A categoria de alteridade”, trazem à tona um problema de ordem conceitual que é um efeito do tratamento inadequado dos usos de analogia e de seus corolários, em particular a categoria de semelhança. O problema pode ser exemplificado na generalização da concepção todoroviana de alteridade, baseada, anacronicamente, na noção contemporânea de “diferença cultural”. Veremos como os modos de identificação e de relação (Descola) que governavam a representação letrada, entre outras práticas, no século XVI, eram, antes, comandados pela noção de semelhança, através da qual se classificavam os homens, em graus analógicos e hierárquicos. Em suma, neste último bloco, como resposta aos problemas teóricos mais imediatamente colocados pelos usos de discursos da época moderna, no seu funcionamento analógico, serão tratadas as noções de mesmo e outro (dos séculos XVI ao XX); e a formulação das noções de simpatia, no século XVIII (Hume); e de empatia, no começo do século XX (Lipps), que fundamentam concepções antropológicas contemporâneas.

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