Romance faz viagem por clássicos contemporâneos

Romance faz viagem por clássicos contemporâneos

Em “Janelas irreais”, Felipe Charbel revisita obras de DeLillo, Cony, Roth e Bolaño

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Logo nos primeiros registros de “Anos de formação”, Emilio Renzi conclui que é capaz de contar sua vida por meio dos livros. “Se eu me lembro das circunstâncias em que estava com um livro, isso para mim é a prova de que ele foi decisivo. Não necessariamente os melhores, nem os que me influenciaram: são os que deixaram uma marca”, diz o alter ego do escritor argentino Ricardo Piglia.

Em “Janelas irreais”, do carioca Felipe Charbel, temos igualmente um narrador que se vale da literatura para desvendar um passado. Um professor de 40 anos que, através de um diário de releituras, revisita obras para encontrar nelas a pessoa que foi e a que deixou de ser.

Seu propósito é simples: voltar a ser feliz (ou ao que entende como felicidade). Em meio a uma crise existencial e outra conjugal, após uma longa temporada fora do Brasil com sua esposa, a ideia é se livrar de “uma dieta intelectual rigorosa à base de tratados de filosofia e textos teóricos densos”, resgatando a postura do leitor comum, sem obrigação crítica, que passeia por um cânone sentimental de clássicos particulares.

“Contar a leitura como se narra história, num diário que expusesse fatias carnudas da minha vida, mas embrulhadas pelas fantasias de um leitor”, define o narrador. Assim, ele elege quatro obras marcantes, que esmiúça no curso não-linear dos dias: “Os detetives selvagens” (1998), de Roberto Bolaño; “O teatro de Sabbath” (1995), de Philip Roth; “Quase memória” (1995), de Carlos Heitor Cony ; e “Ruído Branco” (1985), de Don DeLillo. Um exercício de intertextualidade e de anotação, que se mistura a observações cotidianas, lembranças e fragmentos de criação: uma narrativa híbrida entre ficção e ensaio.

Charbel estabelece relações entre a transcrição da vida do protagonista e a maneira como palmilha o conteúdo dos livros revistos. Aliás, as referências que não se restringem à bibliografia dos quatro autores eleitos, transitando naturalmente de Rousseau a Stephen King, até chegar ao universo das séries de TV.

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Outro recurso interessante é a sutileza com que o autor captura o “espírito” das obras e o incorpora no tratamento do texto. Quando se debruça sobre o romance de Roth, por exemplo, a narrativa se ocupa da convivência com a esposa, do sexo, do colapso do casamento. Do mesmo modo que, a releitura de Cony traz a lume o relacionamento com o pai, morto há pouco tempo, tratando da natureza do luto e dos pecados da paternidade, na parte mais sensível e atmosférica do diário.

Ir a fundo nas particularidades de cada livro gera, no entanto, duas maneiras de o leitor se relacionar com o texto. Para aqueles familiarizados com as obras, é saboroso acompanhar os maneirismos e as ilações do narrador, rir das piadas autocentradas, sacar as alusões. Por outro lado, aqueles que desconhecem Bolaño, Roth, Cony e/ou DeLillo terão uma experiência de leitura, nesse aspecto, incompleta. É um enredo que se arma impreterivelmente a partir de uma bagagem de informações externas.

A vantagem é que Charbel nunca perde o foco do protagonista, conduzindo a narrativa pela força da memória ainda que, a todo instante, aberta para que se enxergue a literatura que lhe cabe de pano de fundo. Com isso, a viagem de autodescoberta ganha dimensão, transcendendo as situações ficcionais que expõem, até tocar o inconsciente do leitor que acaba envolvido pelas próprias lembranças, buscando em si os vestígios dos livros que marcaram sua vida.

Renzi/Piglia deduz que uma leitura se torna inesquecível, não pelo conteúdo, mas pela emoção que se fixou na memória. E talvez a armadilha do livro seja mesmo essa: avançar pela janela irreal que o separa da vida e, antes que se perceba, transformar-se em afetividade.

JANELAS IRREAIS

Autor: Felipe Charbel

Editora: Relicário

Páginas: 190

Preço: R$ 38

Cotação: Bom